
20070430

20070426

Eles tentavam disfarçar o calor que saía das meninas do olhar, mas via-se bem a humidade vaporosa que se levantava, do sítio onde se encontravam e que o cartaz não anunciava. Às vezes, os dois confundiam-se em um só, mas quando trocavam as palavras com o que queriam, realmente dizer, toda a unidade ia ao encontro da relatividade dos seres, na diferença que está em agirem sem pensar e pensarem sem agir…
A história deles ia assim, tal e qual a estão a ler e a não perceber, talvez eu e eles soframos do mesmo bem.
Afinal o espectáculo anunciado no cartaz tinha sempre a lotação esgotada, mesmo nos dias em que ia muita gente comprar o milho para as pipocas.
Muitos actores só atrapalham e o dois era o número par, considerado ideal pelos que juram, nunca ter visto o filme... mesmo que a tela esteja sempre, mesmo ali à frente.
20070420
Como começou, ninguém ia acreditar se fossem afixados cartazes em locais públicos, era preciso anunciar esta estreia em locais privados, daqueles em que as letras vermelhas nos cegam com a proibição. Respeitadores da ordem pública, afixamos num local, do mais privado que há em nós. Ele era feliz e acreditava que naqueles momentos ela também o era. Toda a gente passava pelo cartaz, anunciante destes duelos e pareciam não reparar (alguns viravam o olhar e riam embaraçados, que eu bem os vi), mas ele lá estava, naquele local privado que conheciam um do outro, que era também proibido e ...
20070419
Afasta-me de mim
Antes que me encontrem morto
Não entendo o amor
E passo o tempo a pensar
Não chego a nada, nem o tempo, se parece importar
Sou um louco da razão
Tentei ver os sinais
E o que tinham para me mostrar
Nunca entendi o código e era dos mais normais
Será que já percebi
E nem quis saber
Já tive o amor bem perto
Sem o ver
Pensei que era mais fácil
Seguir o caminho prático
Mas o amor não existe misturado no que é hábito
Sou um louco da razão
Sou um louco da razão
Não penso no coração
Fui classificado demente
Tenho medo de ter medo
Desequilibra-me a mente
Sou um louco da razão
Sou um louco da razão
20070415
Ouros e solitárias
Deixem fugir os cavalos
Abram alas à procissão
Hoje é dia de meia – noite
E de baile no salão
Não percam o sapatinho
O príncipe cego não vai ouvir
e Vai sentir
E calar
Tanta procura
Feche-se a desilusão
Na masmorra mais húmida
E cerre-se o portão
Mande-se a chave ao Tejo
Todo junto não vale um beijo
O príncipe cego sabe sentir
Não vai ouvir
Não vai calar
Vai
20070412


No mapa que rege o tempo sou o ponteiro maior,
magnetizado pelo espaço no minuto interior.
A fórmula química da força na equação do sentir,
Dá um agnóstico confesso idolatrado no sorrir

20070409

«Deixei abertas as portas da janela, para despertar cedo, mas até agora, e a noite é já tão velha que nada se ouve, não pude deixar-me ao sono nem estar desperto bem. Um luar está para além das sombras do meu quarto, mas não passa pela janela.Existe, como um dia de prata oca, e os telhados do prédio fronteiro, que vejo da cama, são líquidos de brancura enegrecida. Como parabéns do alto a quem não ouve, há uma paz triste na luz dura da lua. (...)»
-- Fernando Pessoa in Livro do Desassossego
20070407
Páscoa... Boas

